Oficina do Saber

Compartilhando experiências & construindo conhecimentos

Alunos pressionam por uma negociação nesta sexta. Eles estão há 17 dias acampados no prédio, pedindo eleições diretas para reitor. Levantamento do Globo mostra que, só este ano, 15 reitorias foram ocupadas em diferentes estados do país

FONTE {http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.php?id=90029}

Estudantes que ocupam a reitoria da USP desde o primeiro dia do mês estão bloqueando o acesso ao campus do Butantã, na capital paulista, na manhã desta sexta-feira (17), e prejudicando o acesso ao Hospital Universitário. Na quarta, a direção da universidade cedeu e informou que gostaria de marcar um encontro com os manifestantes para a próxima semana, mas os movimentos estudantis querem negociar imediatamente. Já na Unicamp, alunos prometem levantar acampamento da reitoria na próxima segunda-feira (21).

 

De acordo com a segurança da USP, estão bloqueados os principais acessos ao campus, nos portões 1, pela Avenida Afrânio Peixoto, e o 3, pela Avenia Corifeu de Azevedo Marques. Segundo funcionários do Hospital Universitário da USP, a entrada de pacientes está prejudicada, já que o portão 2, na Marginal Pinheiros, está liberado, mas é um acesso de veículos.

 

Esses dois casos são os mais recentes de uma série de 15 ocupações de reitorias que aconteceram este ano. Uma pesquisa feita pelo GLOBO mostra que, desde 2011, estudantes ocuparam ao menos 50 sedes administrativas de instituições em diferentes estados. Cada ação foi motivada por demandas específicas, mas a ampliação na assistência estudantil, a igualdade na eleição de reitores e melhorias no ensino estão entre as exigências mais comuns.

 

Não há dados oficiais sobre ocupações de reitorias no Brasil. Tanto o Ministério da Educação (MEC), quanto entidades estudantis como União Nacional dos Estudantes (UNE) e Assembleia Nacional dos Estudantes – Livre (ANEL) afirmam não possuírem números ou pesquisas sobre o tema.

 

A partir de ferramentas de busca no Google, O GLOBO constatou que além da USP e Unicamp, outras 13 universidades tiveram as reitorias ocupadas em 2013. Já no ano passado, foram 21 movimentos, número que cai para 14 em 2011. Todos os casos constatados pelo jornal foram relatados em algum momento por veículos de imprensa.

 

De acordo com a presidente da UNE, Virgínia Barros, as ocupações cresceram a partir de 2007, quando as universidades começaram a aderir ao Reuni e a receber investimentos do governo federal. No entanto, segundo ela, os movimentos têm ganhado maior notoriedade recentemente por conta da truculência tanto da parte das reitorias quanto da própria polícia:

 

– A ocupação de reitoria é um instrumento legítimo de pressionar por mudanças, ainda mais onde existe pouco espaço de diálogo entre a administração e os estudantes. A USP, em vez de negociar, acionou a Justiça para a reintegração imediata de posse. Só fazemos ocupações quando se esgotam os canais de diálogo, como foi nesse caso.

 

Já o presidente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais Ensino Superior (Andifes) discorda. Reitor da Universidade Federal do Ceará (UFC), Jesualdo Farias entende que há casos onde primeiro os estudantes ocupam reitorias, para somente depois apresentarem reivindicações. Para agravar o impasse, Jesualdo afirma que muitas das demandas dos movimentos estudantis são impossíveis de se cumprir em curto prazo.

 

– Se são pautas que contribuam para o aperfeiçoamento da vida acadêmica, vamos negociar. Agora, acontece que muitas vezes que a pauta é inviável, como por exemplo a paridade em todos os colegiados da universidade. Não tem como o reitor atender a uma demanda dessas sem ter que mudar leis federais. O diálogo fica difícil – argumenta o presidente da Andifes, que ressalta ainda ser a reintegração de posse na Justiça apenas o último recurso a ser utilizado pelo reitor em caso de ocupação.

 

Mas os motivos para ocupações em 2013 foram variados. Se alunos da Unicamp e da Universidade Federal da Minas Gerais (UFMG) baixaram acampamento em retaliação à entrada da Polícia Militar nos campi, estudantes das federais do Maranhão, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e do Vale de São Francisco exigiram melhorias na assistência estudantil, como moradia, restaurante e atendimento hospitalar universitários.

 

Em cinco dos 15 casos neste ano, as ocupações terminaram após alunos costurarem acordos com as diretorias das instituições. Em outros quatro, foi a Justiça quem encerrou, determinando a reintegração de posse das reitorias.

 

O episódio da USP está caminhando pelo meio termo. Nesta semana, o desembargador José Luiz Germano da 2ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça de São Paulo deu um prazo extenso de 60 dias para a desocupação, argumentando que “ocupantes não querem se tornar os novos donos do prédio da reitoria”, mas sim protestar. Eles reivindicam eleições diretas para reitor, votação paritária entre alunos, funcionários e professores, e fim da lista tríplice, que confere ao governador do estado de SP a escolha do reitor entre os três nomes mais votados.

 

Ocupando a reitoria desde 1º de outubro, Arielli Tavares percebe a importância de protestar por melhores na universidade brasileira mais bem posicionada em rankings internacionais de excelência de ensino. Para Arielli, ocupar a USP dá ao movimento estudantil a chance de levar pautas para outras universidades:

 

– Levantamos essa bandeira da democratização da universidade e chamamos todos os movimentos estudantis brasileiros para ocuparem suas reitorias, contra todo tipo de repressão e autoritarismo dentro da universidade.

 

Rio tem as ocupações mais longas

Até o momento, os estudantes do estado do Rio foram os campeões no quesito ocupação mais duradoura. Em 78 dias, cerca de 30 alunos da Universidade Gama Filho (UGF) tiveram como endereço residencial a reitoria da instituição, em Piedade, Zona Norte do Rio. Caso raro de ocupação em universidade particular, o movimento é o mais longevo dos últimos anos. O grupo queria a intervenção do MEC na mantenedora da UGF, o grupo Galileo Educacional, acusado como o responsável pela crise financeira que atinge a instituição. A ocupação terminou em outubro, após o fim da greve de professores, sem que o ministério tenha intervido na Galileo.

 

No segundo lugar ficou a ocupação da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFFRJ), com 54 dias de acampamento. Em março, estudantes entraram na reitoria exigindo melhorias estruturais em prédios do campus de Seropédica, além de reforço na segurança e maior iluminação no interior da universidade. O movimento cessou com um acordo entre a reitoria e os universitários.

Comentários estão encerrados.