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No último trimestre de 2008, com a falência do banco Lehman Brothers, a crise financeira internacional, iniciada no segmento de hipotecas americanas de alto risco, transforma-se em uma crise sistêmica global, encadeando forte desalavancagem das instituições financeiras, elevação da aversão a riscos e a interrupção de linhas externas de crédito. Como resultado, verificou-se a desvalorização brusca de moedas de vários países, a deflação de ativos reais e financeiros, a queda do dinamismo do comércio internacional e o aumento do desemprego, sobretudo nas economias desenvolvidas.

O importante documento “Science, Technology and Industry Outlook 2012” da OCDE que é objeto desta resenha, mostra que a crise internacional não poupou a inovação. A partir de um conjunto de indicadores, tais como o número de registro de patentes e de marcas, o montante de gasto de empresas e do setor público em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) e de enquetes junto aos governos e empresas, o relatório da OCDE identifica uma queda do desempenho das atividades associadas à ciência, tecnologia e inovação (CT&I) na maior parte dos países analisados.

Os principais canais de transmissão da crise sobre as atividades de CT&I foram a dificuldade crescente de acesso ao financiamento, que afetou, sobretudo, as pequenas e médias empresas (PME), e principalmente a queda da demanda dos produtos das principais empresas inovadoras somada a fortes incertezas sobre a evolução futura de seus mercados.

Os efeitos negativos da crise sobre a inovação incidiram, entretanto, de forma heterogênea segundo os países e setores econômicos. Em termos geográficos, o desempenho da inovação permite a classificação de países em três grupos diferentes. De um lado, aqueles países que pouco sofreram com a crise internacional, mantendo seu desempenho positivo em matéria de inovação, tais como muitos países emergentes e em desenvolvimento, especialmente os asiáticos (China, Coreia, Índia, etc.). De outro lado, os países onde as atividades de P&D e de inovação foram mais duramente afetadas, compreendem aqueles cujos sistemas de inovação já se mostravam fragilizados mesmo antes da crise internacional, tais como alguns países do leste e do sul da Europa. Entre esses dois grupos, encontra-se a maioria dos casos, formando um terceiro grupo onde as atividades associadas à inovação resistiram em algum grau os efeitos da crise, mas cuja evolução futura continua incerta.

Ademais, pôde se verificar que o conjunto de empresas de média intensidade tecnológica, que inclui o setor automobilístico, foi o que mais sofreu com a crise, apresentando os piores indicadores em relação à evolução de suas vendas, geração de emprego e gastos com P&D. Da mesma forma, levando em conta o tamanho das empresas, as PME e as empresas jovens foram mais duramente prejudicadas pela evolução recente da conjuntura econômica.

Carta IEDI n. 559

Apesar desse cenário, até 2012 os gastos públicos em CT&I resistiram bem à crise e à degradação das finanças públicas, sugerindo o reconhecimento estratégico da inovação por parte dos governos nacionais. Assim, a política de inovação foi incluída em planos de recuperação econômica em diversos países, seguindo as seguintes tendências: suporte aos institutos públicos e à ampliação da infraestrutura de pesquisa, redução da asfixia financeira das empresas, ajuda direcionada às PME, ajustamento dos instrumentos de política, com destaque para o aumento da importância de isenções fiscais às empresas inovadoras, identificação e incentivo à inovação de setores essenciais para a competitividade nacional (especialização inteligente) e reformas estruturais.

O desempenho futuro da inovação continua, todavia, imerso em incertezas provenientes de dois fatores: o prolongamento da crise econômica e a crise financeira do setor público, que coloca em risco a capacidade dos governos de continuar reforçando ou preservando os incentivos à inovação de forma a arrefecer a retração do setor privado.

da Crise Global Sobre a Evolução da Inovação Entre 2009-2011. No último trimestre de 2008, com a falência do banco Lehman Brothers, a crise financeira internacional, iniciada no segmento de hipotecas americanas de alto risco, transforma-se em uma crise sistêmica global, encadeando forte desalavancagem das instituições financeiras, elevação da aversão a riscos e a interrupção de linhas externas de crédito. Como resultado, verificou-se a desvalorização brusca de moedas de vários países, a deflação de ativos reais e financeiros e a queda do dinamismo do comércio internacional e o aumento do desemprego, sobretudo nas economias desenvolvidas.

Entre meados de 2009 e início de 2010, parecia se desenhar uma tendência de recuperação da atividade global, refletindo-se na valorização de ativos e em expectativas favoráveis para a evolução do PIB, como resposta às políticas macroeconômicas anticíclicas adotadas pelos governos de inúmeros países no período anterior. Esse cenário, contudo, não se concretizou. Os efeitos defasados da desaceleração econômica sobre as receitas fiscais dos países se fizeram sentir em 2010 e 2011, e somaram-se à ampliação dos gastos públicos, decorrente do desemprego e de políticas fiscais anticíclicas, de sorte a gerar dúvidas, e consequentemente especulação financeira, sobre a sustentabilidade da dívida pública de vários países da OCDE, especialmente europeus.

O Science, Technology and Industry Outlook 2012 (STI) da OCDE mostra que, na maior parte dos países, a crise internacional teve um impacto negativo sobre a evolução dos gastos em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) e em inovação, à exceção das economias emergentes, especialmente as asiáticas, tais como Coreia, Índia e China, cujas trajetórias foram muito pouco afetadas. A conjuntura recente só não foi ainda mais prejudicial à inovação devido ao fato de que o apoio público às atividades de ciência, tecnologia e inovação (CT&I) de empresas e instituições públicas de pesquisa integrou o conjunto mais amplo de medidas de combate à crise adotadas por inúmeros países.

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